terça-feira, junho 16, 2026

Defensores e críticos debatem constelação familiar na CAS


Defensores e críticos da “constelação familiar”, uma terapia alternativa que busca identificar a origem de problemas pessoais em questões familiares não resolvidas, debateram a eficácia dessa prática em audiência pública interativa promovida nesta quinta-feira (24) pela Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado. A audiência foi solicitada pelo senador Eduardo Girão (Podemos-CE), que presidiu a reunião.

A constelação familiar, cujo efeito sobre a saúde não tem validação científica, faz parte das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), que foram institucionalizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) como “recursos terapêuticos transversais”, juntamente com a acupuntura, a homeopatia e a terapia de florais, entre outras. São práticas que, segundo o site do SUS, buscam “a prevenção de doenças e a recuperação da saúde com ênfase na escuta acolhedora” e podem estar presentes na Rede de Atenção à Saúde, integradas ao modelo convencional de cuidado. Segundo o dado mais recente do SUS, em 2019 foram realizados em todo o país 1.838 procedimentos de constelação familiar como PICS na atenção primária à saúde.

— Esse conhecimento terapêutico relativamente novo começou no Brasil na década de 1990, iniciando maior expansão a partir de 2010. Sua eficácia é relatada por milhares de pessoas. Há posições divergentes e vamos ouvir todos de forma justa e equilibrada. Esta audiência pública é histórica e quebra paradigmas — declarou Eduardo Girão no início do debate.

Diretamente da Alemanha, Sophie Hellinger, viúva do criador da constelação familiar, Bert Hellinger, expôs alguns princípios dessa terapia alternativa. Em seguida, falaram terapeutas e entusiastas da constelação familiar, como Renato Shaan Bertate, pioneiro da prática no Brasil; Rose Militão, diretora de uma escola de constelação familiar no Ceará; Daniela Migliari, jornalista e terapeuta; Inácio Junqueira, diretor da Faculdade Innovare, que forma “consteladores familiares”; Sami Storch, juiz de direito e coordenador de cursos da Innovare; o médico Décio Fábio de Oliveira Júnior; e o biomédico Mateus Santos.

Os adeptos da constelação familiar reiteraram que não se opõem à ciência “convencional” e que as abordagens podem ser complementares:

— Se estamos aqui, é porque esse trabalho ganhou voz. Aqui temos a oportunidade de ouvir juntos os dois lados. Eu mesmo utilizo remédios [da medicina convencional], mas muitas vezes o remédio é um suporte, não promove a cura — afirmou Renato Bertate.

— Tendo profundo apreço pelo processo científico, me vejo muito aberta a essa iniciativa [de realizar o debate]. Com todo conhecimento novo acontece esse tipo de questionamento — disse Daniela Migliari.

Na segunda metade da audiência, pronunciaram-se os debatedores céticos em relação à eficácia da constelação familiar: o físico Marcelo Takeshi Yamashita; o psicólogo Tiago Tatton, diretor-geral da Iniciativa Mindfulness no Brasil; Daniel Gontijo, membro da Associação Brasileira de Psicologia Baseada em Evidências; a física teórica e pesquisadora de pseudociências Gabriela Bailas; o especialista em direito ambiental Mateus Cavalcante de França; e Paulo Almeida, diretor-executivo do Instituto Questão de Ciência, associação sem fins lucrativos que defende políticas públicas baseadas em evidências. Eles agradeceram ao presidente da CAS, senador Sérgio Petecão (PSD-AC), pela oportunidade de fazer um contraponto durante a audiência.

— Em termos de ciência, sobre as constelações familiares, tudo o que temos hoje são opiniões. Elas podem ser respeitadas, mas são opiniões. Não há ética ou ciência que justifique sua presença em espaços públicos, com dinheiro público — afirmou Tiago Tatton.

Segundo o professor e físico Marcelo Takeshi Yamashita, “não existe nenhum embasamento experimental ou teórico, do ponto de vista da psicologia, que embase essa prática [da constelação familiar]”.

Gabriela Bailas lembrou que há uma sugestão pública em andamento (SUG 1/2022) que propõe o banimento dessa prática das instituições públicas. Ela manifestou preocupação com a adoção da constelação familiar até mesmo em varas de família — juízes estão, segundo ela, colocando vítimas diante de agressores, provocando o trauma conhecido como “revitimização”, sobretudo em mulheres.

— A constelação fere os direitos das mulheres. Recebo diversos relatos de revitimização no meu canal no YouTube — disse Gabriela.

O juiz Sami Storch defendeu o uso da constelação familiar como “inovação” na Justiça, mas “dentro da lei”, por enxergar na prática uma possibilidade de acelerar a resolução de conflitos.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Polícia Civil cumpre 19 mandados contra detentos que tiveram novas prisões decretadas pela Justiça

A Polícia Civil de Mato Grosso deflagrou, entre os dias 8 e 12 de junho, a primeira fase da Operação Incarceratus de 2026, que...

Sema cadastra voluntários para resgate de animais silvestres em Unidades de Conservação durante período de emergência ambiental

A Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT) abriu cadastro de voluntários que tenham interesse em atuar no resgate, manejo e destinação de animais...

Governo de MT aumenta valor de repasse para municípios terem mais agilidade na compra de cestas de alimentos

O Governo de Mato Grosso vai ampliar de R$ 35 milhões para R$ 101 milhões o cofinanciamento estadual da assistência social destinado aos 142...

Dados da ANTT apontam que obras do Governo de MT na BR-163 representam 28% dos investimentos em rodovias federais

A Nova Rota do Oeste foi responsável por 28% de todo o investimento realizado pelas 31 concessionárias de rodovias federais do país em 2025....