sexta-feira, abril 24, 2026

Consignado no Auxílio Brasil é ‘fogo na gasolina’, alerta economista

'É colocar fogo na gasolina', diz economista sobre consignado com Auxílio Brasil
Divulgação

‘É colocar fogo na gasolina’, diz economista sobre consignado com Auxílio Brasil

Juliana Inhasz, professora de Economia do Insper, avalia que o endividamento da população é um entrave a mais para o desempenho da economia no próximo ano.

Para ela, diante do quadro atual, o  crédito consignado a beneficiários do Auxílio Brasil nos moldes propostos pelo governo é “colocar fogo na gasolina”. O risco é gerar um quadro maior de insolvência das famílias no país, o que prejudica o consumo, afirma em entrevista ao GLOBO.

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O endividamento e a inadimplência atingiram em julho o maior patamar da série histórica. O que isso significa?

Esse dado reflete o que é o Brasil hoje, um país que tem dificuldade de deixar o passado recente da pandemia para trás. Ainda sofremos com as consequências da pandemia, mas temos um histórico de população endividada resultado de questões fiscais mal resolvidas.

O endividamento é uma consequência do nosso não crescimento econômico. A economia brasileira cresce com o freio de mão puxado, sem tração, com baixa produtividade. A população no geral tem renda muito baixa e enfrenta o problema adicional sério da inflação alta. A população que precisa de crédito paga mais por isso, e o crescimento econômico não se desenrola. 

Somos vítimas de um contexto em que a população tem renda pressionada, com redução da renda inclusive nominal. As vagas geradas são nominalmente menores, o que num quadro de inflação é ainda mais grave. As pessoas ganham menos com preços maiores. É a receita para a tempestade perfeita.

O crédito consignado ao beneficiário do Auxílio Brasil como proposto ajuda?

Não, sem dúvida esse empréstimo consignado é colocar fogo na gasolina. A gente já tem um recorde de inadimplência. O endividamento mostra que a população precisa se financiar, mas a inadimplência mostra que essa população não consegue pagar o financiamento que faz.

Existe algo bem errado na economia brasileira: as pessoas não conseguem se manter, e uma parcela crescente não consegue pagar o crédito que toma. O consignado gera estímulos de consumo em uma situação em que a economia brasileira não tem suporte adequado para esse estímulo.

Como essa situação impacta o crescimento econômico?

Não temos visto ganhos de renda e crescimento econômico, e as medidas pontuais do governo estimulam o consumo. Isso, associado ao endividamento, pode gerar um problema muito maior de insolvência ao longo do tempo. Teremos superendividados em volume excessivo e uma insolvência generalizada, é um padrão insustentável.

Quais os riscos disso para a economia?

Há uma geração maior de incerteza. A taxa de juros já é alta hoje, com essa grande inadimplência e endividamento. O crescimento das dívidas alimenta ainda mais a taxa de juros, é um estímulo para que ela permaneça em um patamar elevado por mais tempo.

A previsão de que a taxa básica de juros comece a cair a partir de 2023 pode ser uma ilusão em um cenário de endividamento como esse. Isso cria uma grande incerteza para o produtor. A taxa alta de juros inibe investimentos e consumo.

O mercado financeiro entende que o risco está alto, o produtor opta por produzir menos e limita ainda mais o crescimento. É um efeito em cascata.


Fonte: IG ECONOMIA

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