quinta-feira, abril 23, 2026

Sequelas da covid longa desafiam medicina no Brasil


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Infectados com a covid-19 têm sintomas persistentes mesmo após a cura da doença
Reprodução: BBC News Brasil

Infectados com a covid-19 têm sintomas persistentes mesmo após a cura da doença

Passados dois anos do primeiro caso de Covid-19, o Brasil já tem boa parte de sua população vacinada, mas um desafio ainda pendente: a recuperação dos pacientes com sequelas do vírus.

São principalmente casos de Covid longa — quando os sintomas permanecem por pelo menos quatro semanas — e incluem queixas como fadiga, fraqueza, falta de ar, dor e confusão mental.

De acordo com especialistas ouvidos pelo GLOBO, o país precisa de uma rede integrada de reabilitação e um protocolo nacional para que médicos e enfermeiros saibam lidar com esses casos.

Os primeiros passos começam a ser dados, mas o cenário ainda está longe de ser ideal. Não é incomum pacientes relatarem uma peregrinação no sistema de saúde público e privado em busca de ajuda para tratar os sintomas persistentes.

Tatiane Faria, de 35 anos, pegou Covid em maio de 2020 e até hoje convive com a sensação de queimação pelo corpo e cansaço extremo. Ela conta que foi em quase dez médicos ao longo desses um ano e nove meses. E todos deram a mesma resposta: não há o que se fazer. A situação levou a um quadro de ansiedade e depressão.

“Hoje estou tomando antidepressivo, é o que controla o meu desespero. Eu ficava o dia inteiro na cama, chorando, não conseguia dormir, nem trabalhar. É uma sensação de impotência”, diz ela.

As fortes dores no corpo fizeram Tatiane, que é dona de um salão de cabeleireiro na zona leste de São Paulo, ficar seis meses afastada do trabalho. Mesmo hoje ela consegue ir apenas alguns dias da semana.

“Não consigo retomar a minha vida. Me vejo presa no meu próprio corpo e abandonada, pois a rede pública não dá nenhum tratamento, só remédio para passar a dor e voltar para a casa.”

Diretora do Centro Colaborador da Organização Mundial de Saúde (OMS) para Reabilitação e presidente do Conselho Diretor do Instituto de Medicina Física e Reabilitação do Hospital das Clínicas, Linamara Rizzo Battistella afirma que a reabilitação é o próximo desafio do Brasil na pandemia. 

“É preciso dar reabilitação ajustada à necessidade de cada paciente. Caso contrário, vamos ter uma população inteira demandando cuidados permanentes e fora da condição produtiva”, afirma a especialista, que é idealizadora da Rede Lucy Montoro. “O hospital salva a vida, mas é a reabilitação que devolve essa vida para a sociedade.”

Entre os casos atendidos no Hospital das Clínicas, que em sua maioria são de pacientes vindos de hospitais, Linamara diz que quase todos têm tido sucesso no tratamento e cerca de 8% seguem com limitações importantes no dia a dia. Ela ressalta que apesar de a ciência não explicar muitos desses sintomas, há todo um arsenal terapêutico disponível para tratamento. 

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A pneumologista Patrícia Canto, da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz), defende que haja uma centralidade no cuidado das pessoas com sequelas da Covid, justamente para evitar peregrinações pelo sistema de saúde.

“O SUS pode dar conta, mas são necessários investimentos e organização. O ideal é que o paciente consiga ir a um centro especializado para receber todo o atendimento”, disse a especialista.

Na rede privada, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz criou, em agosto do ano passado, o seu próprio Centro de Tratamento Pós-Covid após observar um número significativo de pacientes precisando de reabilitação e outros com sintomas persistentes.

“Essas pessoas acabavam passando por múltiplos especialistas para ter certeza de que estava tudo bem. Às vezes, sem direcionar para o que era mais essencial e até sobrecarregando o sistema com repetição de exames. Tudo isso por falta de um cuidado centralizado”, afirma Filipe Piastrelli, coordenador do centro. 

Estados como o Piauí criaram unidades específicas de reabilitação pós-covid, mas, segundo especialistas, esses cuidados podem ser feitos nos já existentes Centros Especializados em Reabilitação (CER). Atualmente, o SUS possui 268 CER espalhados de forma desigual pelas 27 unidades da federação. 

O pneumologista Carlos Carvalho, diretor da UTI Respiratória do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da FMUSP, afirma que o Ministério da Saúde deve fazer um diagnóstico das necessidades de atendimento em cada estado do país para, depois, avaliar a necessidade de investimentos nos CER. 

Outra prioridade, diz ele, é a elaboração de um protocolo nacional para o pós-Covid. Em dezembro, Carvalho enviou à Secretária Extraordinária de Enfrentamento à Covid-19, Rosana Leite, uma sugestão de programa de avaliação e tratamento da síndrome pós-covid elaborada em conjunto com outros profissionais da saúde. Até agora ele disse que não teve retorno. 

Em janeiro, o pneumologista teve rejeitado pela pasta o protocolo de tratamento da Covid elaborado por um grupo de estudos que ele formou a pedido do ministro Marcelo Queiroga. O protocolo contraindicava o uso do “kit Covid” ou tratamento precoce. 

“Neste programa de pós-covid nós propomos montar uma rede para cuidar desses pacientes, inclusive com programa de reabilitação. É uma tentativa de estruturação para que se faça uma triagem simples e rápida para tentar reconhecer quem vai ficar com forma crônica de Covid e precisar do serviço de saúde”, diz Carvalho. “É necessário diagnosticar desde já alterações graves que vão ser custosas (para o SUS), até para que haja uma intervenção precoce.” 

Procurado, o Ministério da Saúde não respondeu sobre o documento enviado por Carvalho. Disse, em nota, que a pasta repassa anualmente recursos na ordem de R$ 608,1 milhões para CER e serviços de reabilitação habilitados em uma única modalidade.

Fonte: IG SAÚDE

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