quarta-feira, abril 29, 2026

Precisamos falar sobre o ‘asian fishing’

Pabllo Vittar, Bella Hadid, Anitta e Ariana Grande são algumas das famosas que já foram acusadas de praticarem o asian fishing
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Pabllo Vittar, Bella Hadid, Anitta e Ariana Grande são algumas das famosas que já foram acusadas de praticarem o asian fishing

Você ficaria ofendido (a) se alguém tentasse imitar seus traços por meio de vestimentas, maquiagem, edição de fotos ou procedimentos estéticos? Agora imagina se tais traços carregassem a representação de sua ancestralidade e também fossem o maior motivo de bullying e outras micro agressões direcionadas à sua etnia… E se quem tentasse imitá-los fizesse isso por estética, fetichização ou chacota? Nós precisamos falar sobre o “asian fishing”. Nos últimos dias, o termo acendeu o debate nas redes sociais sobre celebridades não-amarelas que se apropriam dos traços asiáticos.

“Acho que a maior problemática disso tudo é a utilização dos nossos traços étnicos-raciais como adereços de beleza ou moda. E a nossa etnia não é uma moda. Nenhuma etnia é, na verdade. A questão é que as pessoas não-amarelas podem usar os olhos amendoados e depois, se despirem deles. Nós, amarelos, não conseguimos nos despir dos nossos traços. Os nossos olhos são o principal motivo da nossa racialização. É a principal característica do nosso fenótipo e, consequentemente, também um dos principais motivadores das micro agressões e violências que sofremos”, diz a influenciadora Bruna Tukamoto, que aborda o preconceito amarelo nas redes sociais.  

“Por que nós somos alvos de racismo e uma pessoa não-amarela com os olhos amendoados é vista como estilosa, linda e moderna?”, questiona.

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Para a criadora de conteúdo, a prática ganhou forças nos últimos anos devido ao “hype” da cultura asiática, com a popularização dos k-pop e dos doramas. Anitta, Ariana Grande, Bella Hadid e Pabllo Vittar são algumas das famosas que já foram acusadas de praticarem o asian fishing.

Mas por que o asian fishing é tão problemático?

O cineasta Hugo Tatsuo, que pesquisa representações racializadas amarelas no audiovisual pela Universidade Federal Fluminense (UFF), explica que o asian fishing é um fenômeno muito mais complexo do que a prática realizada por uma pessoa individualmente.  “É um fenômeno global, no qual traços fenotípicos e elementos culturais pertencentes a grupos socialmente racializados são transformados em mercadoria e vendidos. Mercadoria você compra, usa e joga fora. E quando você faz isso você esvazia o significado desses traços e desses elementos culturais, que fazem parte da ancestralidade de um grupo ou de uma etnia. Então, não é sobre as pessoas fazendo, é sobre como o capitalismo e a branquitude se apropriam e transformam em mercadoria”.

Essa apropriação de traços étnicos e culturais não é direcionada apenas a pessoas amarelas. O fenômeno também acontece com negros, no chamado “blackfishing” . O termo deriva da gíria em inglês “catfishing”, usada para designar usuários que criam perfis fakes ou identidades falsas nas redes sociais para enganar alguém. Curiosamente, Anitta e Ariana Grande também já foram acusadas de fazerem “blackfishing”.

Além de vestimentas, maquiagem, edição de fotos e procedimentos estéticos, a prática racista também se dá por meio do bronzeamento artificial exagerado, uso de tranças, preenchimento labial etc. Podemos dizer que a família Kardashian é uma das grandes responsáveis por popularizar o blackfishing no mundo inteiro. Juntas, as irmãs Kardashian-Jenner têm mais de 1 bilhão de seguidores no Instagram.

Kylie Jenner: antes e depois
Reprodução/Instagram

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Representatividade amarela

Em agosto deste ano, a TV Globo voltou a ser acusada de praticar “yellowface” , quando atores brancos são maquiados de forma a retratarem pessoas amarelas. Em ‘Cara e Coragem’, novela das sete da emissora, Paolla Oliveira e Marcelo Serrado seriam dublês de Ana Clara Lima e Bruno De Luca, que interpretariam eles mesmos em uma gravação. O cenário e os figurinos usados, no entanto, remetiam à cultura asiática de forma estereotipada. Registros da cena foram compartilhados no Instagram do Gshow. 

A emissora foi duramente criticada nas redes sociais, inclusive pela atriz Ana Hikari, contratada da casa. Ela tuitou alguns emojis de palhaço e escreveu “Esse emoticon é a minha foto do crachá de atriz contratada da casa cada vez que a empresa faz uns yellowface/whitewashing/ abordagens racistas e eu tenho que fingir que tá tudo certo”.

Após as acusações, a Rede Globo resolveu cortar as cenas da novela. Mas essa não foi a primeira vez que a empresa foi criticada pela forma como lida com pessoas amarelas. Em 2016, durante o folhetim da seis “Sol Nascente”, dois personagens amarelos foram interpretados por atores não-amarelos: Giovanna Antonelli e Luís Melo. É o que chamamos de “whitewashing” , ou “embranquecimento”.

Outro caso bastante famoso de whitewashing é o da contratação da atriz Scarlett Johansson como protagonista do longa “A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell”. A artista foi a escolhida para interpretar a personagem Motoko Kusanagi, de origem japonesa.

Por que o racismo amarelo é tão pouco falado no Brasil?

Dados do último Censo Demográfico, realizado em 2010 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), revelam que o Brasil possui 2,084 milhões de habitantes que se autodeclaram amarelos. Por que, ainda assim, o racismo amarelo é tão pouco falado no Brasil?

“O racismo contra os amarelos ainda é muito deslegitimado, porque, por muito tempo, ele foi visto como apenas brincadeiras e piadas. Como o racismo amarelo está muito relacionado a micro agressões, a agressões realmente mais ‘sutis’, as pessoas tendem a relativizar e a usar a justificativa de que são meras piadas. É mais difícil enxergar as violências por trás de tudo isso”, avalia Bruna Tukamoto.

Já na avaliação de Hugo Katsuo, os movimentos negro e indígenas se estruturaram há muito mais tempo no país enquanto movimentos organizados politicamente, sobretudo devido ao genocídio dessas populações. Para ele, o debate sobre as questões amarelas de forma organizada ainda é muito recente. “O racismo acaba atingindo a gente de outra forma. Mas eu não acredito que exista uma escadinha de opressão, que uma identidade sofre mais do que a outra. A gente não faz uma conta matemática para saber quem é mais oprimido do que o outro. As opressões se dão de formas diferentes mas vêm do mesmo lugar, que é o da manutenção da supremacia branca”.

Apesar disso, ele acredita que, apesar de muito recente, o movimento amarelo avançou de forma muito mais rápida do que os movimentos negro e indígena, que têm anos de luta, militância e resistência. “Isso se deve a um privilégio que as pessoas amarelas têm em relação a pessoas negras ou indígenas em relação à ascensão social e econômica no contexto brasileiro. A gente acessa e ocupa mais lugares que possibilitam que esses debates sejam mais divulgados de forma mais rápida”.

Fonte: IG Mulher

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